volátil

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Por hoje

Do que eu estava falando mesmo? Ah, sim. Daquela música que tocou de manhã no rádio. Pois é, passei boa parte da vida achando que era uma balada romântica, até o dia em que prestei atenção e descobri – tóim! – que era uma canção pro Nelson Mandela. Então, quando escutei o rádio hoje, me lembrei e ri sozinha da minha própria bobagem. Mas tudo bem, ué. De todo jeito é uma canção de amor e isso estava entendido. O que mais? Os gatos continuam miando para avisar que vai chover. O cachorro sempre late quando eu toco a campainha de casa nas vezes em que esqueço a chave. Não é estranhamento, mas alguma bronca por conta da distração. A sacola de planos anda meio vazia. Então existe bastante espaço para carregar as novidades. Tá vendo? Estou colocando em prática os seus conselhos a respeito de lembrar de olhar as coisas pelo outro lado. E continuo pensando que você poderia aceitar esse risco também. Aquele prédio grandão? Eles derrubaram. Logo mais vão erguer um desses condomínios malucos com tudo incluso, tudo privativo, opressivo, muito seguro. Nesse meio tempo, no vazio que ficou se pode ver uma paisagem bonita no cair da tarde. Quando passo lá na frente, penso em fazer uma foto na manhã seguinte. Mas esqueço da máquina fotográfica todo dia no caminho entre a cama e o chuveiro, igual acontece com a idéia de começar uma terapia. Novas construções virão, e novas demolições, e novas construções. Bom, é isso. No geral, acho que tem muita gente que parou de falar e deixou de escrever. Não podem mais. Ou simplesmente estão fora de forma. Para recuperar a forma há a prática, há o jejum. E deve ter mais alguma coisa que é claro que não me lembro agora. Por hoje, eu já pratiquei. E como também estou de contenção, vou parando por aqui. Sim. Fim.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

No sábado de manhã

O senhor de boina confabulou com os pássaros.

As árvores fizeram pose.

Alguns foram a pé.

Outros a cavalo.

E teve quem acordou bem cedo para trabalhar.


Eu agradeci. E prometi que um dia volto.

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Cara suja

Parada no trânsito no centro da cidade naquele fim de tarde de frio e garoa, a mulher estava distraída. O rádio ligado, canção velha e suave, o pensamento no jantar, no marido, nos filhos e nas tarefas do dia seguinte.

Não percebeu os dois meninos de cara suja se aproximarem da janela do carro. Através do pequeno espaço entreaberto, um deles pediu “um trocado, tia, por favor, pra mim comprar uma comida”.

Interrompida de repente em sua simples distração, a mulher se assustou. O menino captou o seu olhar no mesmo instante. O olhar assustado da mulher lhe ativou algum mecanismo e ele gritou através do vidro entreaberto, subitamente feroz: “passa a grana, vagabunda!”

Pela fresta que os separava, num reflexo a mulher passou o troco do almoço que ficara no bolso do casaco e, no mesmo segundo, a fileira de carros finalmente avançou.

Os meninos saíram depressa, satisfeitos não tanto pelo dinheiro mirrado, e sim pelo prazer que lhes dava se fazerem temer e notar. A mulher, ao captar a satisfação triunfante no olhar dos meninos naquele breve espaço de tempo, voltou para casa se sentindo verdadeiramente miserável.

Terça-feira, Agosto 04, 2009

Acorde

Nessa noite ao som da música. Melodia suave. Vai e vem em ritmo harmônico. Onda. Sopro e batida. Olhos fechados escutando esse encaixe perfeito. Conforto. Paz e proteção. Paz. Não dormir. Para absorver tudo.

Nesta noite esperando o sono chegar, o calor se espalhando, as cenas se embaralhando e brincando. Som de radiola distante demais para o alcance dos ouvidos.